Carência de informação e legislação, além de condições naturais adversas, faz com que o número de exemplares de meteoritos no Brasil ainda seja reduzido em comparação a outros países.

O Brasil tem 77 meteoritos reconhecidos pela Ciência, apesar de as estatísticas sugerirem a existência de milhares de exemplares espalhados por seu território, além pelo menos uma centena preservada por particulares.

Apesar disso já estivemos na vanguarda, em relação a meteoritos. Quando o mais famoso dos meteoritos brasileiros, o Bendegó, foi descoberto, em 1784, ainda se discutia a natureza extraterrestre desses corpos. Um século mais tarde, a pedido do imperador D. Pedro II, o Bendegó foi transportado para o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, ao final de uma verdadeira epopeia que envolveu de parelhas de bois a navios. Durante muito tempo o Bendegó, de 5,3 toneladas, foi o maior meteorito em exposição em todo mundo.

O primeiro trabalho mais detalhado sobre meteoritos no Brasil foi feito por Orville Adelbert Derby (1851-1915), geólogo e geógrafo norte-americano radicado no Brasil. Derby publicou seu trabalho em 1888, na revista do Observatório e refere-se à existência de sete meteoritos na coleção nacional.

Aparentemente não houve maiores interesses por meteorítica no Brasil até a publicação, em 1936, de um trabalho nesta área pelo naturalista Ney Vidal, encarregado do transporte do segundo maior meteorito brasileiro, o Santa Luzia, então recém-descoberto. Até aquela época mais quatro novos exemplares somavam-se a coleção de meteoritos brasileiros referida por Derby.

Em 1951, Euzébio de Oliveira fez um balanço dos meteoritos existentes nas instituições científicas brasileiras: Museu Nacional, Departamento Nacional da Produção Mineral e Escola de Minas de Ouro Preto. Em todas as coleções já havia a presença de meteoritos estrangeiros, resultado de permutas. Depois disso, várias outras publicações foram feitas por pesquisadores como Walter da Silva Curvello e Celso de Barros Gomes. Mas esses trabalhos são, em sua maioria, descrições de meteoritos. O trabalho mais completo, Brazilian Stone Meteorites, foi publicado por Klaus Keil e Celso B. Gomes, mas restringe-se a meteoritos pétreos.

Atualmente, o Museu Nacional está desenvolvendo o projeto “Meteoritos Brasileiros”, reunindo a colaboração de geólogos, astrônomos, estudantes e outros pesquisadores interessados em meteoritos.

Meteoritos caem aleatoriamente sobre a Terra distribuindo-se equitativamente. Ainda assim, o Brasil, com quase 50% da área da América do Sul, possui uma amostragem de meteoritos inferior a do Chile ou da Argentina, com territórios bem menores. Temos apenas 5% da quantidade de meteoritos dos Estados Unidos, com área quase equivalente à nossa. Essa amostragem reduzida de meteoritos brasileiros deve-se principalmente à carência de informações e consequente insensibilidade da população para a percepção do valor de registros e comunicação de eventos capazes de contribuir para aumento deste patrimônio.

Outros fatores que dificultam a identificação e coleta de meteoritos no Brasil incluem o clima quente e úmido que rapidamente intemperizam esses corpos, fazendo com que acabem confundidos com outras rochas da região. Há, ainda, o fato de grande parte do Brasil ser coberta por espessas mata nativas, impossibilitando uma varredura na área para as buscas necessárias.

Ainda assim, o Brasil foi “premiado” com o encontro de alguns dos mais raros meteoritos do mundo: o Angra dos Reis (até recentemente o único Angrito, classificação dada em sua homenagem), Itibira (até há pouco tempo o único Eucrito vesicular), Governador Valadares (meteorito marciano e um raro Nakhlito), Santa Catarina (o meteorito conhecido mais rico em níquel), o Serra de Magé (Eucrito com crosta de fusão verde), o São João Nepomuceno (segundo siderito rico em sílica) e o Paranaíba (brecha), que somam mais de 10% dos meteoritos brasileiros.

Alguns desses meteoritos são raros o bastante para levar um conhecido colecionador internacional a arriscar-se à prisão por tentativa de furto do Angra dos Reis e Serra de Magé do Museu Nacional, em 1997.

Há até 10 anos, o número de meteoritos brasileiros conhecidos não chegava a 40. Nestes últimos anos, como projeto Meteoritos Brasileiros, foi possível elevar este número para 77. E isso sem que, até agora, o projeto conte com qualquer suporte financeiro significativo. Agora, esperamos que com o desenvolvimento do projeto reunindo astrônomos, geólogos e leigos, seja possível aumentar significativamente o número de meteoritos nacionais.

Com esta mudança avançaríamos na direção em que seguiram os Estados Unidos, onde a grande quantidade de meteoritos encontrados não ocorreu por acaso, mas deveu-se ao grande entusiasmo com que o professor de Biologia Harvey H. Nininger dedicou-se às buscas, desde a década de 20. Ele promoveu palestras e ofereceu recompensas em troca de meteoritos e foi também foi o primeiro negociante nesta área.

Alguns meteoritos brasileiros têm histórias particularmente interessantes, confundindo Ciência, religião e pura desinformação. É o caso do Uberaba que em sua queda, na manhã de 29 de junho de 1903, destelhou a sede da fazenda próxima à cratera que escavou, no município de Uberaba, Minas Gerais.

O Uberaba, com 40 quilos, levou o desconfiado fazendeiro a desfazer-se da propriedade, receoso da ocorrência rara que não pode compreender. Mas não foi apenas o fazendeiro que se impressionou com o meteorito. Pessoas da localidade se apressaram a fazer romaria até o local para coletar pedaços de pedra cósmica. Com eles faziam chás que acreditavam curar os males do corpo. O padre local, não menos impressionado, ordenou que se cobrisse a cratera formada pela queda e se erigisse uma cruz no local.

Outro meteorito para o que também se erigiu uma cruz no local da queda foi o Paranaíba, aerólito condrito de 100 quilos que aterrissou em 1956 numa fazenda 70 km a noroeste de Paranaíba, no Mato Grosso. As pessoas da região também fizeram sucessivas procissões até o local, em época de secas, alegando que quando retornavam para casa já estavam molhados pela chuva que caía. Nenhuma destas duas cruzes sobreviveu para testemunhar o estranhamento popular das pedras que caem do céu.

O Brasil ainda se ressente de uma legislação que regulamente a propriedade de meteoritos, pois muitas pessoas que possuem exemplares não os exibem por receio de perdê-los. Sem informações adequadas, quase sempre consideram que cada um desses exemplares vale alguma fortuna e por isso preferem contatar comerciantes estrangeiros pela internet para vendê-los pelo que acreditam ser o melhor preço.

Por pura sorte, com frequência, os negociantes só acreditam em meteoritos reconhecidos pela ciência (com chancela do Meteoritical Bulletin). No Brasil, o Museu Nacional, mesmo sem recursos, é o centro de referência nesta área. Para ter análise de um exemplar basta ao interessado enviar uma amostra de pelo menos 20 gramas para o Setor de Meteorítica / DGP / Museu Nacional – Quinta da Boa Vista – São Cristóvão – Rio de Janeiro / RJ. CEP 20940-040 aos cuidados de M. Elizabeth Zucolotto.

M. Elizabeth Zucolotto, astrônoma, é responsável pelo Setor de Meteorítica do Museu Nacional no Rio de Janeiro. Um dos sonhos da vida dela é ver crescer a coleção de meteoritos nacionais com colaboração da população das mais diferentes regiões do País!

Um comentário em “Brasil Desconhece seus Meteoritos

  1. Alceu José Pinto Junior Responder

    Encontrei uma pedra um pouco mais pesada q o normal é levemente atraída por imã com interior muito duro e gostaria de fazer uma análise visual com alguém q entenda do assunto posso mandar fotos

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