Em Busca dos Museus de Nininger, o Pai da Meteorítica Moderna

Das ruínas próximas à Cratera do Arizona ao desconhecido prédio que hoje pertence a um Hotel.

Harvey Harlow Nininger (1887 – 1986), um nome que marcou a história e o rumo da ciência meteorítica no mundo. Ele foi um entusiasta dos meteoritos na América do Norte e, com o seu amor e dedicação, também despertou paixões, assim como o interesse científico pela meteorítica.

À época de suas primeiras expedições, enquanto muitos acreditavam ser perda de tempo caçando meteoritos, por considerá-los extremamente raros na superfície da Terra, Nininger, com apoio de sua esposa Addie e seu filho Robert, aventurou-se pelos campos em busca dos seus preciosos fragmentos meteoríticos, aumentando, assim, sua coleção. Através do seu trabalho de “Caça aos Meteoritos”, ele mostrou ao mundo que essas rochas extraterrestres estão presentes em grandes concentrações na superfície terrestre para justificar a busca por eles.

Harvey H. Nininger (1887 – 1986).

Sua carreira como cientista autodidata e autofinanciada foi única, na qual ele deixou sua marca e seu legado por onde passou, realizando além de atividades de campo, um amplo trabalho de divulgação da meteorítica, palestrando em centenas de faculdades e universidades, escolas primárias e secundárias, conversando nas esquinas e com quem se interessasse pelos meteoritos.

Durante seus 40 anos como meteoriticista e educador, contou com uma vasta produção científica que possui 162 artigos científicos e 4 livros sobre meteoritos. Dessa maneira, Nininger tornou-se o maior colecionador particular de meteoritos até os dias atuais, sendo considerado o pai da meteorítica moderna e uma referência mundial.

Localizado na clássica Rota 66, nos EUA, apenas poucos quilômetros ao norte da Cratera do Arizona (Barringer Meteor Crater), Nininger fundou seu primeiro museu para abrigar e expor sua coleção com mais de 6 mil espécimes e pesando cerca de 8 toneladas, o American Meteorite Museum (1942 – 1953).

American Meteorite Museum – o primeiro museu de Harvey Nininger entre os anos de 1942 a 1953, localizado próxima à Cratera do Arizona. Fonte: Meteorites

Os meteoritos brasileiros também fizeram parte da rica coleção de Nininger, pois seu interesse não se limitava apenas aos encontrados em território americano, mas também aos espécimes encontrados em diferentes partes do mundo. Em 1952, Nininger, sabendo que o Museu Nacional no Rio de Janeiro era detentor do maior acervo de meteoritos no Brasil, principalmente dos brasileiros, enviou uma carta direcionada ao curador da coleção, Walter Curvello, a fim de propor uma troca entre meteoritos de sua coleção e os meteorito brasileiros Casimiro de Abreu e Pará de Minas (antes referido em carta como Palmital). A seguir, imagens das trocas de cartas entre o Nininger e Curvello, representando ambos os museus.

Primeira carta de Harvey Nininger à Walter Curvello, curador dos meteoritos do Museu Nacional no Rio de Janeiro, em 03/02/1951. Fonte: Museu Nacional/UFRJ
Resposta de Walter Curvello do Museu Nacional à Harvey Nininger, em 26/07/1951. Fonte: Museu Nacional/UFRJ
Resposta de Harvey Nininger à Walter Curvello sobre a troca de meteoritos entre os museus, em 26/08/1951. Fonte: Museu Nacional/UFRJ

A década de 1950 foi um período marcado pelo início da corrida espacial, liderada pelos Estados Unidos e a União Soviética. Em 04 de outubro de 1957, os russos lançaram com sucesso o Sputnik 1, primeiro satélite artificial a orbitar a Terra. Esse evento revolucionou o olhar para os meteoritos e tudo relacionado à ciência espacial, despertando o interesse de instituições e museus para aquisição de meteoritos que compunham a enorme coleção de Nininger. O primeiro museu a adquirir parte de sua coleção foi o British Natural History Museum, em 1958, seguido pelo Arizona State University Center, em 1960, que comprou o restante de sua coleção.

Logo após a mudança da Rota 66, ocorrida em 1953, o museu de Nininger mudou-se para a cidade de Sedona, também no estado do Arizona, e permaneceu aberto até o ano de 1960. Hoje, existe apenas um vestígio do que foi o prédio que abrigou seu primeiro museu, no qual visitantes da Cratera do Arizona, ao passarem pela longa e solitária estrada Meteor City Road, podem admirar a bela composição entre ruínas e o lindo cenário desértico em seu entorno.

Maria Elizabeth Zucolotto nas ruínas do primeiro prédio que abrigou o American Meteorite Museum. Fonte: Maria Elizabeth Zucolotto

O segundo prédio que abrigou o American Meteorite Museum na cidade de Sedona (1953 – 1960), após a venda de boa parte de sua coleção e seu fechamento, caiu no esquecimento e até então quase ninguém mais sabia de sua localização. Em janeiro de 2019, ao visitar a cidade e encontrar a antiga casa de Nininger, localizada na Meteor Drive, começamos a perguntar pela vizinhança sobre o antigo museu. Pouquíssimos moradores da cidade sabiam passar alguma informação e só após abordar um carteiro conseguimos uma direção mais precisa para começar a busca pelo antigo prédio.

Amanda Tosi em frente à antiga casa de Harvey Nininger.
Amanda Tosi em frente à antiga casa de Harvey Nininger. Fonte: Amanda Tosi
Placa de homenagem na antiga casa de Nininger.
Placa de homenagem na antiga casa de Nininger. Fonte: Amanda Tosi

Seguindo a orientação geográfica que nos foi dada e nos baseando por uma foto antiga de um prédio cercado pela mística e incrível paisagem composta pelos famosos Red Rocks formados por arenitos, encontramos o antigo e último museu de Nininger, que abrigou sua linda, rica e vasta coleção. A missão de encontrá-lo não foi fácil, pois tivemos que passar diversas vezes pela mesma avenida, olhando atentamente cada detalhe das construções e da paisagem ao fundo. Contudo, o esforço e a dedicação para descobrir se ainda existia algum vestígio de sua construção, enfim, foi recompensada ao identificarmos uma estrutura com a paisagem idêntica à foto antiga.

Segundo prédio que abrigou o American Meteorite Museum na cidade de Sedona. Fonte: Livro Find a Falling Star de Harvey Nininger
Segundo prédio que abrigou o American Meteorite Museum na cidade de Sedona. Fonte: Livro Find a Falling Star, de Harvey Nininger
A mesma construção que hoje pertence ao hotel Best Western Plus. Fonte: Amanda Tosi
A mesma construção que hoje pertence ao hotel Best Western Plus. Fonte: Amanda Tosi

No momento em que encontramos o local, o sentimento de euforia e realização tomou conta de nós duas e, obviamente, que deveria ser registrado e eternizado através de fotos! Hoje, a construção pertence ao Hotel Best Western Plus e possui 3 suítes disponíveis para hospedagem.

Amanda Tosi e Maria Elizabeth Zucolotto em frente à construção que foi o segundo museu de Nininger na cidade de Sedona. Fonte: Amanda Tosi
Amanda Tosi e Maria Elizabeth Zucolotto em frente à construção que foi o segundo museu de Nininger, na cidade de Sedona. Fonte: Amanda Tosi

Assim, não poderia deixar de fazer um belo registro histórico dessa viagem realizada nos EUA em 2019, no qual remete aonde “tudo começou”, simbolizando os trabalhos de campo que inspiraram centenas de cientistas e amantes dos meteoritos pelo mundo e, hoje, atuam como verdadeiros hunters.

Atualmente (início de maio de 2020), o número total de meteoritos registrados no Meteoritical Bulletin Database é de 63.733, o que mostra a importância desse trabalho pioneiro de Nininger de não só ir a campo caçar meteoritos, mas todo trabalho envolvido de divulgação, pois a maioria deles é encontrada por moradores da região onde ocorreu a queda.

Devido aos frutos do trabalho de Nininger, que inspirou amantes dos meteoritos ao redor do mundo, assim como futuras gerações, hoje, o Brasil possui 78 meteoritos reconhecidos. Destes, 29 foram recuperados através de um projeto pioneiro de divulgação realizado em todo país nos últimos 10 anos: “Tem um ET no seu Quintal?”, de autoria da atual curadora dos meteoritos do Museu Nacional/UFRJ, Dr.ª Maria Elizabeth Zucolotto, e contou com apoio de astrônomos amadores e diversas parcerias.

Nos últimos 3 anos, a partir de uma viagem de campo ao sertão brasileiro, foi criado um grupo de mulheres – As Meteoríticas – formado por várias cientistas, dentre elas Elizabeth Zucolotto, Amanda Tosi, Diana Andrade, Sara Nunes e Wania Wolff, as quais desenvolvem não só pesquisas em laboratórios e publicações, mas, também, aventuram-se pelos campos em busca de mais fragmentos de meteoritos brasileiros.

Dessa forma, nossa intenção é divulgar não apenas todo legado de Nininger para a ciência meteorítica, como também manter vivo os vestígios de onde toda sua história começou. Até hoje ele é nossa fonte de inspiração para divulgar os meteoritos às crianças e jovens que serão os futuros cientistas, para ensinar às pessoas como reconhecer um meteorito, para ir a campo em busca de novos meteoritos e, principalmente, inspira-nos a nunca desistir de nossos objetivos!

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